quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Comparação entre os filmes Apocalypto e Hábito Negro.

Ambos os filmes, Apocalypto e Hábito Negro, buscam mostrar a violência presente não apenas nos rituais, mas também na vida em geral do povo Maia, no caso de Apocalypto, e nativos da América do Norte, em Hábito Negro. Isto fica explícito nas fortes cenas de violência que ambos os filmes exibem, com cenas de mutilação e estupro comuns durante a exibição.

A diferença entre os dois reside no objetivo, ou o que parece o ser, em mostrar essa violência e em como ela é contextualizada historicamente e, de maneira mais aprofundada, socialmente.

Em Apocalýpto, a violência não é de maneira alguma justificada ou contextualizada. Nas palavras de Carlos Eduardo Corrale em uma crítica sobre o filme:

“Em nenhum momento é justificado porque os maias são tão malvados e sádicos, enquanto boa parte do tempo é ocupado por cenas de batalhas cheias de câmeras tremendo e violência desnecessariamente explícita, mais até do que muito filme de terror, aliás. Aparentemente, violência explícita e vilões sem motivação...”

Angélica Brito diz:

“A violência é excessiva e extrema sem muito sentido, fazendo com que o filme seja ideal para os que têm estômago mais forte.”.

A partir dos dois argumentos usados pelos críticos, já se pode chegar à conclusão que os fins da violência em Apocalypto parece ser a própria violência, e não algo maior. O objetivo do diretor em mostrar a guerra entre as tribos é o mero entretimento para, como Angélica Brito disse, aqueles de estômago mais forte. Embora seja mostrado que os sacrifícios são religiosos, não busca-se um aprofundamento nas motivações dos Maias invasores, encontrar um verdadeiro porque de estar se realizando aquilo, qual a necessidade daquele massacre, as nuances daquela sociedade que levam à violência; o que acaba por criar uma imagem de sentido quase literal de “selvagem” para os nativos.

Pouco no filme, mesmo por conta da escassa documentação disponível, trata das estruturas da sociedade indígena nativa, como a convivência, relações intertribais, etc; e o contexto histórico é inexato (segundo Angélica Brito um perído de “declínio do Império Maia, pouco antes da chegada de colonizadores europeus”). Por conta disso, o filme traz pouco ou nenhum diálogo com autores da academia, praticamente restringindo-se apenas ao campo cinematográfico.

Já “Hábito Negro” apresenta a violência intrinsecamente relacionada com a sociedade, com o modo de vida e com o contexto em que aqueles índios viviam. Através dos diálogos dos personagens, é possível perceber que matar o inimigo é necessário para a própria sobrevivência da tribo, já que serve como uma afirmação de força perante os rivais. A violência dos rituais não é apenas algo para agradar os deuses. Caso deixassem um prisioneiro fugir, demonstrariam fraqueza e desta maneira seriam atacados. É como diz um indígena já nos minutos finais da película, quando discute sobre a mudança de religião para o cristianismo:

“Se deixarmos de matar nossos inimigos e ficar com várias mulheres, demonstraremos fraquezas, e assim nossos inimigos virão atrás de nós”.

O próprio filme revela que os índios convertidos ao cristianismo foram massacrados posteriormente. Portanto, fica claro que a violência é necessária para a sobrevivência dos nativos naquele contexto, e não uma matança sem sentido para os deuses, como fica entendido em Apocalypto.

Além disso, Hábito Negro apresenta o contexto histórico da expansão da fé católica no século XVII com os jesuítas, e através do filme é possível um diálogo entre aquela e a nossa sociedade, num sentido da relação entre a religião indígena e a religião cristã, que é essencialmente a mesma na atualidade. O caráter pacífico desta, como já argumentado, se mostra incompatível com a sociedade nativa e com o contexto em que esta vivia. Os conceitos para a salvação pregados pelo Padre Lafourgue não servem para aqueles nativos. Estes, por sua vez, tem seus próprios meios para chegarem a uma suposta “salvação” pós-mortem, que pode ser tão aceitável quanto a pregação católica. O breve diálogo entre Daniel e Lafourge ilustra isto, onde aquele pergunta se é realmente mais difícil acreditar que as almas dos homens caçam as almas dos animais à um paraíso onde as almas ficam sentadas nas nuvens olhando para Deus.

Fazendo um diálogo entre o filme com os índios do Brasil, cito o cronista Léry:

“Acreditavam não só na imortalidade da alma, mas ainda que, depois da morte, as que viveram dentro das normas consideradas certas, que são as de matarem e comerem muitos inimigos, vão para além das altas montanhas dançar em lindos jardins com as almas de seus avós”. (CUNHA, Manuela Carneiro da(org.), História dos Índios no Brasil; Companhia das Letras; p. 387).

Nesta citação, a violência aparece como algo necessário para a salvação da alma, o que, em certa medida, pode ser levado tanto aos nativos de Apocalypto, quanto aos de Hábito Negro; por conta do caráter belicoso de ambos, é natural pensar que estes também acreditam na honra e na fama guerreira como fatores para uma paz pós-mortem, indo diretamente contra a religião cristã. O filme de Mel Gibson despreza todos estes elementos antropológicos, sociológicos e religiosos, e acaba por transmitir a mesma idéia de cronistas português da época do descobrimento, como Thevet, por exemplo:

“Todas as suas guerras não se devem se não a um absurdo e gratuito sentimento de vingança”. (CUNHA, Manuela Carneiro da (org.), História dos Índios no Brasil; Companhia das Letras; p. 390).

Tanto Apocalypto quanto Hábito Negro tem como protagonista a violência. Porém, enquanto o objetivo do primeiro parece ser a violência gratuita, sem nenhum sentido e contexto histórico definido e com pouca ou nenhuma informação mais aprofundada sobre os nativos nos sendo revelada, o segundo é possível de se fazer diálogos maiores sobre o pensamento, idéias, religiosidade, relações, e outros elementos dos povos nativos que a primeira vista nos parece apenas uns “selvagens canibais”, porém são mais complexos que apenas análises rasas podem perceber. Hábito Negro, embora seja uma ficção, nos permite chegar à maiores questões de estudo. Não é uma fonte de fato, mas certamente nos inspira a buscá-las.

domingo, 29 de agosto de 2010

Para descontrair

A concepção de tempo e o calendário maia

“Se não me perguntarem, eu sei o que é. Se tiver de explicar para alguém, não sei. O problema é que o passado não está mais aqui, o futuro ainda não chegou e o presente voa tão rápido que parece não ter extensão alguma. Aliás, se o presente só surge para virar passado, não daria pra dizer que o tempo é uma caminhada rumo à não-existência?” (Santo Agostinho)

Muitas vezes, uma pequena invenção pode provocar uma grande interferência na História. Atualmente vivemos a obsessão do tempo e da velocidade, mas a percepção da passagem do tempo pelos homens e a divisão desse tempo, são quase tão antigos quanto o próprio homem. Algumas culturas enxergam o tempo como um devorador de coisas. Mas ver o tempo como um devorador teria alguma justificativa? Talvez sim e poderíamos encontrá-la na mitologia. Segundo a mitologia grega, os titãs, filhos de Urano (o Céu) e Géia (a Terra), dominaram o universo. Cronos*, um dos titãs que habitava a terra desde o início dos tempos, tomou o lugar de seu pai e se proclamou o senhor do céu. Mas como castigo, seus pais o avisaram que seria punido, um de seus filhos o destronaria. Para evitar que tal profecia se cumprisse, Cronos tratou de livrar-se dos filhos, devorando-os à medida que iam nascendo. Em grego, Cronos quer dizer tempo. A partir desse mito, podemos entender a metáfora aplicada ao tempo. Os acontecimentos começam e terminam em certo período. Por isso, há a associação do tempo como algo que determina, que legitima, que afasta, que cura. O tempo é um conceito permeado de paradoxos. Platão afirma que o tempo tem uma origem cosmológica. A filosofia oriental sustenta que o tempo, assim como o espaço, são construções da mente humana. Aristóteles sugere que o tempo deve ser pensado como circular. O homem vive no tempo e o tempo molda o homem, faz e se torna história. O homem percebeu a necessidade de se dividir, conhecer, entender e até tentar dominar o tempo, inclusive por questão de sobrevivência. O homem precisou organizar suas tarefas ao longo do dia para proteger-se e descansar durante a noite. Precisava entender os mistérios da natureza como o tempo de chuva, de sol, a boa época para o plantio e colheita. Em todas as sociedades foram criadas maneiras de interpretarem e acompanharem o tempo. Nas primeiras sociedades americanas não foi diferente.

Na America temos como exemplo de eficiência de contagem e organização do tempo a civilização maia. Tinham um grande interesse na movimentação dos corpos celeste e desenvolveram uma densa astronomia. Observando o sol e a lua conseguiram criar um calendário preciso composto por meses de 29 dias e um ano de 365 dias. A contagem do tempo entre os maias era realizada pelo uso de dois calendários. Um chamado tzolkin, possuía 260 dias divididos em 20 períodos de 13 dias. Esse calendário era utilizado para marcar as principais festas religiosas dos maias. O outro era conhecido como haab, era utilizado no controle dos fenômenos naturais e na contagem de fenômenos que não tinham vínculo religioso. A junção dos dois calendários auxiliava em outra contagem de tempo que era marcada a cada 52 anos. O saber matemático desenvolvido por esse povo possibilitou o domínio de várias formas de contagem do tempo. Muitos pesquisadores indicam que o cálculo maia foi o primeiro a conceber a noção do numeral zero. A base de contagem era feita por sistema vigesimal que organizava as ordens numéricas.

A partir desse relato, podemos observar o quanto essas sociedades antigas eram bem desenvolvidas, pois o modelo de calendário que eles utilizava é bem próximo ao modelo usual do mundo ocidental.


*Na mitologia romana, Cronos corresponde a Saturno.



Referências Bibliográficas:

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD. 2001.

http://www.cepa.if.usp.br/e-fisica/mecanica/curioso/cap03/cap3framebaixo.php





Cultura Maia

A civilização maia teve grande manifestação cultural, principalmente através do seu desenvolvimento artístico e científico, o que fez inclusive, com que fossem comparados aos gregos antigos.

A arquitetura, voltada sobretudo para o culto religioso das grandes cidades causa impacto devido a sua grandiosidade, grandes templos, palácios e pirâmides, é caracterizada por abóbadas falsas e hieróglifos esculpidos ou pintados.

A principal manifestação de sua cultura revela-se no plano intelectual: a escrita maia é uma das mais complexas do mundo, é formada por símbolos (hieróglifos), composta por fonogramas (símbolos que representam sons) e por ideogramas (símbolos que representam idéias). Acredita-se que, devido ao grau de complexidade, somente à elite maia tinha acesso a escrita, que fazia parte do cotidiano nas grandes cidades. Com a escrita registravam acontecimentos, datas, contagem de impostos e colheitas, guerras e outros dados importantes. Atualmente 85% da escrita maia já foi decodificada.

Desenvolveram muito a matemática, chegaram a conceber o valor do zero muito antes dos europeus. Também se utilizavam de um sistema de contagem vigesimal.

Também tinham a astronomia bastante desenvolvida, chegaram a organizar um calendário anual bem próximo ao que é utilizado pelas sociedades ocidentais contemporâneas.

Nas artes, a escultura em baixo relevo e as construções eram influenciadas pelo tema religioso. A cerâmica maia também foi bastante desenvolvida, estando entre as mais refinadas do mundo. As pinturas mostram as cerimônias e os momentos que antecediam as batalhas, seu desenvolvimento, e o sacrifício final dos prisioneiros.

A religião maia era politeista. “A base da religiosidade maia pode ser entendida a partir da obrigação que os deuses tinham imposto aos homens, que deveriam obedecer, respeitar e alimentá-los. E o alimento que mais contentava os deuses era o sangue, que eles próprios doaram aos homens, por isso os sacrifícios de animais e de seres humanos eram comuns. Às vezes nem era necessário que o homem fosse morto num ritual, o furo nas orelhas, na língua, nos dedos e a oferenda do sangue já era suficiente para alimentar as divindades. “(Turci, Erica. Maias: Uma história de mistérios que ainda não acabou).

Acreditavam também num mundo cíclico, em que tudo se repetiria eternamente a cada 52 anos.

Quanto a suposta previsão maia de que o mundo vai acabar em 2012, a história não é bem essa, na verdade, a cultura maia acreditava que nessa data se encerraria um ciclo e que começaria um outro.

O fim da civilização maia ainda é um mistério para historiadores e arqueólogos, varias hipóteses foram formuladas. “Quando chegaram ao continente americano, os espanhóis encontraram a sociedade maia em um avançado processo de desarticulação. Para alguns estudiosos, as mudanças climáticas e a ocorrência de lavouras com baixa produtividade foram as grandes razões que determinaram a extinção desta cultura” (Souza, Rainer. A Civilização Maia)

Outras hipóteses surgiram, mas a guerra, doenças, inundações e longas secas, ou ainda a combinação destes fatores são freqüentemente sugeridos como os motivos da decadência.

Sociedade Maia

A sociedade maia era marcada por uma hierarquia: no topo estava a família real,os ocupantes dos cargos políticos mais prestigiados e os ricos comerciantes locais. Na camada intermediária, encontram-se outros integrantes do funcionalismo público, os militares de menor patente e os trabalhadores especializados. Por fim, a base de tal sociedade era integrada por trabalhadores braçais e camponeses.

As cidades eram núcleos de decisões políticas e religiosas do Império, sendo governadas por um estado teocrático. Com o passar do tempo, esses centros urbanos se transformavam em centros administrativos, passando a controlar aldeias vizinhas. Esses inúmeros centros urbanos independentes, sustentados por dezenas de aldeias agrícolas ao seu redor, são a base da organização politica da Civilização Maia. Nunca ocorreu a unificação entre as cidades maias. Essas cidades-Estado inclusive, guerreavam entre si, com o intuito de aumentar seu poder de influência e conseguir prisioneiros, que posteriormente seriam escravizados ou sacrificados em rituais religiosos.

A economia era baseada na agricultura , que era feita através de queimadas e rotação de solo. Os principais produtos produzidos eram milho, feijão, algodão, abóbora e tubérculos. Essa agricultura primitiva era praticada as milpas, unidades de produção agrária. Suas técnicas de irrigação de solo eram bastante avançadas. Desenvolveram estratégias muito sofisticadas e grandes obras de engenharia para acumular água, distribuindo-a através de canais que aproveitavam as diferenças da topografia. Para diminuir os efeitos da seca, que durava oito meses, escolhiam a proximidade de lagos naturais ou poços para se instalar. Também praticavam a caça, a pesca e criavam animais para a alimentação.

Sendo portadores de uma vasta cultura material, os maias também desenvolveram uma vasta atividade comercial.

Popol Vuh - Mito da Criação Maia

sábado, 28 de agosto de 2010

Quem são os Maias?

A civilização Maia é concebida como tal a partir do momento que se adota a língua como fator caracterizante e unificador de um grupo social. Assim, os Maias não eram concentrados em um território com fronteiras determinadas, mas dispersavam-se ao longo da Península de Yucatán e nas regiões baixas e quentes do Petén. Junto aos Maias encontra-se também o quiché e, aliados, compreendem ricos idiomas responsáveis por vários dialetos. Explodindo–se o limite territorial maia, o quiché era utilizado no norte do México, Belize e demais regiões mesoamericana.
A região maia-quiché é registrada e dividida em três fases, utilizando como critérios o processo de sedentarismo e modo de exploração e uso do território. Pode se dividir em algumas fases esse momento:
a) Antes de 900 a.C, onde ainda eram nômades e sobreviviam da caça e da pesca. A partir de então, guiados pelo grupo mexicano atonacas, passaram a fixar-se a terra, aprimorando suas técnicas de exploração e reorganizando-se tanto em esferas sociais, como econômicas e populacionais.
b) De 317-987 a.C, os Maias concentram-se na região central da península onde, como a arqueologia esclarece, urbanizaram-se. Esse período é denominado como Antigo Império.
c) 987-1697 d.C, época do Novo Império, localizado ao sul de Yucatán e que, diferentemente do que o nome sugere, não é um mero prolongamento do Antigo, fato este demonstrado pela dessincronia nas artes e na arquitetura de ambos. Tendo em vista que tais categorias culturais expressam uma visão de mundo, há de se relevar uma busca por uma alteração no campo mental desta sociedade. É nesse período que o meio social para de ser organizado em torno de centros religiosos e passa a ter um cunho mais bélico, com cerco nas cidades. Há crônicas dessa época que levam a crer que houve uma denominação na região de “homens estranhos vindos do norte”, vindos de Meila. Seu chefe alia-se ao chefe Maia, e transforma Cheichén-Itzá como poço religioso. Após anos de aliança pacífica, o falecimento do líder maia, Quetzalcoalte, levou a constantes guerras e á decadência de Yucatán. Foi nesse cenário de desequilíbrio social que os espanhóis encontram a civilização.
O colapso Maia deve-se a desestatização internam como a queda do sistema tributário, conseqüência de uma baixa considerável na produção agrícola. Em cadeia há fome, mortes etc.